28 julho, 2014

De um lugar distante no sofá da sala, corta o resto da unha com uma tesoura que lhe deixa moldar melhor a capa do dedo. O cigarro morre aos poucos no cinzeiro. O incenso vai até a alma. Morde a pele do dedo amarelado cheirando acetona e sorri, pensando no começo do fim. Uma peça para imaginar os prantos. Maquiada, com os cílios alongados pelo rímel que usa mesmo quando está em casa, olheiras pálidas de pó de arroz e um sorriso bobo de só quem já foi é capaz de compreender, deita-se. Entre o céu e o chão do apartamento, encontra a si num mundo deslocado que a orbita. Cruza as mãos sobre o corpo, deixando aparecer as unhas pintadas por um vermelho que preserva a vida até o último suspiro, ou que depois descasca pelo uso. 
Poderia forjar a própria morte só pra renascer de novo. 
E de novo. 

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Menina Acri-doce

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Sempre fui Luana, desde de pequena. Mantenho-me escritora e esquisita. Gostaria de ser prática, dedicar-me à leveza. Sou densa demais pra isso. Fez Deus muito bem em criar a habilidade humana da escrita, pois a solidão não é agradável tampouco suportável. Derreto-me em palavras.

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