30 março, 2014

Das coisas que diminuem quando a gente cresce...

Nasci em Jacarepaguá há quase exatos trinta anos. Aquilo tudo lá era roça mas um bom lugar pra se morar. Uma tranquilidade só. Era tanto sossego, que para se fazer qualquer coisa normal ou rotineira, como ir ao supermercado ou ir ao banco por exemplo, tínhamos que ir para um dos sub bairros mais “urbanizados”. Umas das poucas opções era a Taquara. Meu pai entrava voando pela Estrada do Tindiba, som que já se confundia com a voz dele, e lá no fim da rua, eu pequenininha, avistava pela janela do carro a Praça. Era uma espécie de rotatória pra fazer o retorno que às vezes meu pai errava a saída e ficava dando voltas intermináveis nela. A praça era, ou já foi, verde. Majestosa. Tinha umas árvores enormes e brinquedos grandes, daqueles de puro ferro. Tinha escorrega alto, gangorra e balanço pra umas quinze crianças. Eu adorava ficar olhando, uma vez que na minha rua mal tinha casas. Passei os primeiros anos da minha infância circulando por ali. Meu pai teve durante alguns anos uma oficina mecânica na esquina. A madrinha da minha irmã morava na rua debaixo. A minha também. Minha mãe tinha um afilhado que morava num dos primeiros condomínios grandes que surgiram por aquelas bandas. Um tio e uma tia avó que criaram meu pai e seu irmãos eram apegadíssimos a uma casa velha e cheia de histórias que já fazia parte do cenário. Eles gostavam deveras do bairro. Foram tirados na marra antes que a casa caísse sobre eles. Cresci vendo meu irmão mais velho mandando pelos ares os pneus da bicicleta quando ia encher no posto de gasolina lá da praça. Das milhares de vezes que passei por ali, não me recordo de em nenhuma eu ter brincado naquele parquinho. Minha mãe dizia que era brinquedo de criança grande e que eu iria me machucar. Depois cresci o suficiente, mas não deu tempo. Meus pais se separaram quando eu tinha oito anos. Junto da mãe e da irmã, moramos quase no Rio de Janeiro inteiro mas nunca mais voltamos pra Jacarepaguá. Se eu disser que tinha mais de vinte anos que eu não passava por lá não é exagero. Hoje, mais de duas décadas depois, pela força do destino eu por escolhas próprias, me despenco do Catete às cinco da manhã de um domingo chuvoso para poder chegar a tempo no Frei Luiz, que fica na Boiuna. A primeira vez foi a mãe de um amigo quem me levou. No caminho, olhando o “bairro novo” eis a surpresa: da janela do 600, que é bem maior que o carro do meu pai, não sei o que aconteceu nesses anos todos, mas a Praça Jauru diminuíra. Consideravelmente.

17 março, 2014

Tentou pôr a maior parte de suas coisas 
na sacola, antes de tomar a estrada.
Abarrotou todos os bolsos da saia 
a ponto de não caber mais
coisa alguma.
Dedicou-se a este esforço por saber, 
desde muito antes,
que não havia bagagem maior
nem mais pesada do que a que inevitavelmente
deixava para trás.
E que precisava deixar-se ir.
Feliz da vida.

Menina Acri-doce

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Sempre fui Luana, desde de pequena. Mantenho-me escritora e esquisita. Gostaria de ser prática, dedicar-me à leveza. Sou densa demais pra isso. Fez Deus muito bem em criar a habilidade humana da escrita, pois a solidão não é agradável tampouco suportável. Derreto-me em palavras.

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