Das coisas que diminuem quando a gente cresce...
Nasci em Jacarepaguá há quase exatos trinta anos. Aquilo tudo lá era
roça mas um bom lugar pra se morar. Uma tranquilidade só. Era tanto
sossego, que para se fazer qualquer coisa normal ou rotineira, como ir
ao supermercado ou ir ao banco por exemplo, tínhamos que ir para um dos
sub bairros mais “urbanizados”. Umas das poucas opções era a Taquara. Meu
pai entrava voando pela Estrada do Tindiba, som que já se confundia com
a voz dele, e lá no fim da rua, eu pequenininha, avistava pela janela
do carro a Praça. Era uma espécie de rotatória pra fazer o retorno que
às vezes meu pai errava a saída e ficava dando voltas intermináveis
nela. A praça era, ou já foi, verde. Majestosa. Tinha umas árvores
enormes e brinquedos grandes, daqueles de puro ferro. Tinha escorrega
alto, gangorra e balanço pra umas quinze crianças. Eu adorava ficar
olhando, uma vez que na minha rua mal tinha casas. Passei os primeiros
anos da minha infância circulando por ali. Meu pai teve durante alguns
anos uma oficina mecânica na esquina. A madrinha da minha irmã morava na
rua debaixo. A minha também. Minha mãe tinha um afilhado que morava num
dos primeiros condomínios grandes que surgiram por aquelas bandas. Um
tio e uma tia avó que criaram meu pai e seu irmãos eram apegadíssimos a
uma casa velha e cheia de histórias que já fazia parte do cenário. Eles
gostavam deveras do bairro. Foram tirados na marra antes que a casa
caísse sobre eles. Cresci vendo meu irmão mais velho mandando pelos ares
os pneus da bicicleta quando ia encher no posto de gasolina lá da
praça. Das milhares de vezes que passei por ali, não me recordo de em
nenhuma eu ter brincado naquele parquinho. Minha mãe dizia que era
brinquedo de criança grande e que eu iria me machucar. Depois cresci o
suficiente, mas não deu tempo. Meus pais se separaram quando eu tinha
oito anos. Junto da mãe e da irmã, moramos quase no Rio de Janeiro
inteiro mas nunca mais voltamos pra Jacarepaguá. Se eu disser que tinha
mais de vinte anos que eu não passava por lá não é exagero. Hoje, mais
de duas décadas depois, pela força do destino eu por escolhas próprias,
me despenco do Catete às cinco da manhã de um domingo chuvoso para poder
chegar a tempo no Frei Luiz, que fica na Boiuna. A primeira vez foi a
mãe de um amigo quem me levou. No caminho, olhando o “bairro novo” eis a
surpresa: da janela do 600, que é bem maior que o carro do meu pai, não
sei o que aconteceu nesses anos todos, mas a Praça Jauru diminuíra. Consideravelmente.

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